PróteseNews 2019 | V6N3 | Páginas: 314-321

Resistência à flexão e módulo de elasticidade de cimentos resinosos submetidos a diferentes modos de ativação

Flexural strength and flexural modulus of resin cements submitted to different activation methods

Autor(es):

Célio Vasconcelos Mourão1

Natalia Cunha Alves2

William Cunha Brandt3

Karina Andrea Novaes Olivieri3

Milton Edson Miranda4

1Mestre em Prótese Dentária – Instituto de Pesquisas São Leopoldo Mandic.

2Aluna do curso de graduação e de iniciação científica de Odontologia – Universidade Santo Amaro.

3Professores doutores de Prótese Dentária – Instituto de Pesquisas São Leopoldo Mandic.

4Coordenador e professor doutor de Prótese Dentária – Instituto de Pesquisas São Leopoldo Mandic.

Resumo:

Objetivou-se avaliar a resistência à flexão (RF) e o módulo de elasticidade (ME) de quatro cimentos resinosos de dupla ativação, quando submetidos a diferentes modos de ativação. Os cimentos resinosos foram manipulados seguindo as recomendações do fabricante e inseridos na matriz (7 mm x 2 mm x 1 mm) em incremento único. Os espécimes foram divididos em 12 grupos, de acordo com os fatores “modos de ativação” do cimento resinoso (A – polimerização apenas por reação química; B – fotoativação durante 40 segundos; ou C – reação química durante cinco minutos seguida de fotoativação durante 40 segundos) e “tipo de cimento”, sendo dois convencionais (RelyX ARC – 3M Espe; e Allcem Core – FGM) e dois autoadesivos (Bifix QM – Voco; e RelyX U200 – 3M Espe), n=120 | n=10). A fonte de luz utilizada nos grupos B e C foi luz LED (BluePhase). A máquina de ensaio universal (DL500 – Emic) foi usada para os testes de RF e ME, e os resultados foram analisados estatisticamente. Para RF, Anova dois fatores demonstrou não existir interação estatisticamente significante entre os fatores estudados (p=0,260), entretanto os fatores tipo de cimento e modo de ativação mostraram diferenças estatísticas (p < 0,001). Para MF, houve uma interação estatisticamente significante entre os fatores (p < 0,001). Apenas o cimento Allcem Core manteve o mesmo valor de ME, independentemente do tipo de ativação. Concluiu-se que os cimentos resinosos de dupla ativação necessitam de exposição à luz para produzirem melhores resultados de RF e ME.

Unitermos:

Cimentos dentários; Cimentação; Polimerização; Cura dupla de cimentos resinosos.

Abstract:

The purpose of this study was to evaluate the flexural strength (FS) and the flexural modulus (FM) of different dual-activated resin cements, when using distinct activation methods. The samples were produced in silicon matrix with 7 mm (length), 2 mm (width) and 1 mm (height). The resin cements were manipulated following the mannufacturer’s recommendation and inserted inside the matrix, in a single increment. Three groups were established according to the following activation mode (n=120 | n=10): A (chemical – cement manipulation, introduced in the silicon matrix and left to cure just with a chemical reaction); B (immediate – manipulation, introducing in the silicon matrix and immediate photoactivation during 40 seconds); C (delayed – manipulation, introduced in the silicon matrix where it was left to chemically react during five minutes and only after this interval it was subjected to photoactivation for 40 seconds). Each group was subdivided to each cement. A LED LCU (BluePhase) was used for photoactivation. A universal testing machine (DL500 – Emic) was used. For FS, the two-way Anova demonstrated that there was no statistically significant interaction between the factors studied (p=0.260), however, the factors cement type and mode of activation showed statistical differences (p < 0.001). For FM, there was a statistically significant interaction between the factors (p < 0.001). Only the Allcem Core cement maintained the same FM value regardless of the type of activation. Its concluded that the dual activation resin cements need light exposition in order to produce better mechanical properties.

Keywords:

Dental cements; Cementation; Polymerization; Self-curing of dental resins.

Introdução

A cimentação constitui uma etapa clínica destinada a promover a união entre a restauração indireta e a estrutura dental preparada, sendo de importância fundamental para o sucesso clínico da reabilitação protética. Os diferentes materiais para cimentação foram divididos em dois grupos: os cimentos convencionais (fosfato de zinco; policarboxilato de zinco; ionômero de vidro; e ionômero de vidro modificado por resina) e os cimentos resinosos. Os cimentos resinosos, por sua vez, são divididos em dois subgrupos, conforme a necessidade de uso de sistema adesivo para o preparo do dente. Um grupo faz uso de sistemas que requerem condicionamento ácido de esmalte e dentina em separado, e posterior aplicação do sistema adesivo (Variolink e Variolink II – Ivoclar Vivadent, por exemplo), denominados cimentos resinosos convencionais. O outro grupo não requer o pré-tratamento da superfície dentária (Panavia F – Kuraray Medical, por exemplo), sendo denominados cimentos autoadesivos/autocondicionantes.

Os cimentos resinosos autoadesivos/autocondicionantes foram introduzidos no mercado em 2002 e tinham como proposta superar as limitações dos cimentos, tanto os convencionais quanto os resinosos convencionais. Estes cimentos possuem capacidade adesiva e eliminam múltiplos passos clínicos, necessários quando se faz uso dos cimentos resinosos convencionais, além de reunirem em um único produto todas as características favoráveis dos produtos para cimentação1-2.

Os materiais estéticos para a cimentação são decisivos para que se alcance uma aparência natural quando são utilizadas restaurações cerâmicas livres de metal. Por isso, os cimentos resinosos, com suas excelentes propriedades estéticas, tornam-se cada vez mais populares. Outra vantagem dos cimentos resinosos é sua boa resistência à fratura e alta resistência de união ao substrato dentário3. As propriedades físicas e químicas de um cimento resinoso são consideradas de extrema importância para o sucesso da técnica indireta4, visto que se faz necessária uma forte e durável união entre o cimento e a peça protética, e entre o cimento e a estrutura dental5. Por isso, quanto mais eficiente for a reação de polimerização dos cimentos resinosos, maior será a probabilidade de sucesso.

Conforme a necessidade de ação de uma fonte luminosa para promover a reação de cura dos cimentos resinosos, estes são classificados em fotopolimerizáveis, entendidos como aqueles que requerem a ação da luz para que se consiga sua reação de cura, e os de dupla ativação, os quais completam sua reação de cura através da associação de processos químicos e da ação da luz4. O uso dos cimentos de dupla ativação pretende combinar a reação química com uma ativação rápida através de fonte luminosa, tornando possível a sua cura em áreas mais profundas e sob restaurações mais opacas, situações em que a intensidade da fonte luminosa não é ideal, além de necessitar de um tempo menor de exposição à luz6.

A maior parte dos cimentos resinosos usados na clínica odontológica é de dupla ativação, compreendendo aqueles que reagem mesmo em situações de escassez de fonte luminosa. Porém, algumas dúvidas ainda persistem, principalmente, sobre como ocorre a reação de polimerização quando diferentes modos de ativação são usados7-8. Uma reação de polimerização incompleta pode ocasionar propriedades mecânicas insatisfatórias desses cimentos. Portanto, a análise de suas propriedades torna-se importante, principalmente no que se refere à sua capacidade de cura completa na ausência de luz, quando não for possível a aplicação de luz ou quando a mesma não se fizer chegar devido às características opacas do material restaurador indireto9. Para a polimerização ideal do material, é necessário entender suas características de cura, bem como o potencial de interação entre os diferentes tipos de materiais10.

Propriedades mecânicas de resistência à flexão e módulo de elasticidade são parâmetros básicos para que sejam avaliadas as características mecânicas dos materiais odontológicos e que refletem na capacidade do cimento em resistir ao estresse sem resultar em fratura ou deformação permanente. O conhecimento da composição dos diferentes materiais é de fundamental importância para que o cirurgião-dentista proceda com a escolha correta do material a ser utilizado em cada caso clínico11. Torna-se necessária a compreensão do comportamento dos materiais resinosos em relação à sua capacidade de resistir à deformação. Quanto mais baixa for a deformação, maior o módulo de elasticidade. Por sua vez, a resistência flexural representa a resistência máxima ao dobramento de um material antes que ocorra sua fratura. É relevante esta propriedade, principalmente porque as restaurações são submetidas a fatores como estresse mastigatório12.

Na literatura, observa-se que há necessidade de aplicação de uma fonte luminosa para a obtenção das máximas propriedades mecânicas dos cimentos resinosos de dupla polimerização, o que se opõe às recomendações de seus fabricantes, que apregoam a não necessidade de utilização do recurso da fotopolimerização. O conjunto de hipóteses foi que as propriedades mecânicas de resistência à flexão e do módulo flexural de cimentos resinosos de dupla ativação são semelhantes ou não variam quando diferentes modos de ativação foram usados.

O objetivo desse trabalho foi avaliar as propriedades mecânicas de resistência à flexão e módulo de elasticidade de quatro cimentos resinosos de dupla ativação (dois autoadesivos e dois convencionais), quando submetidos a diferentes modos de ativação. O objetivo desse trabalho consistiu na hipótese que os diferentes modos de ativação não influenciariam na resistência à flexão e módulo de elasticidade de diferentes cimentos resinosos.

Material e Métodos

Para a realização desta pesquisa, foram usados quatro cimentos resinosos de dupla ativação, sendo dois convencionais e dois autoadesivos, mantendo-se a sua cor para que esse fator não influenciasse nos resultados (Quadro 1). Os espécimes foram divididos em 12 grupos, de acordo com os fatores “modos de ativação” do cimento resinoso (A – polimerização apenas por reação química; B – fotoativação imediata durante 40 segundos; ou C – reação química durante cinco minutos seguida de ativação fotoativação por luz durante 40 segundos) e “tipo de cimento”, sendo dois convencionais (RelyX ARC – 3M Espe; e Allcem Core – FGM) e dois autoadesivos (Bifix QM – Voco; e RelyX U200 – 3M Espe), n=120 | n=10 (Figuras 1, 2 e 3).

QUADRO 1 – CIMENTOS RESINOSOS E COMPOSIÇÃO QUÍMICA USADOS NO ESTUDO

Cimento Classificação Fabricante e lote Apresentação Composição
RelyX ARC Convencional 3M Espe (Sumaré/SP, Brasil) 1536300544 Duas pastas (a e b) embaladas no dispenser 3m clicker (4,5 g) Cores: A1, A2 e A3 TEGDMA, pigmentos, amina terciária, peróxido de benzoíla e partículas inorgânicas de zircônia/sílica, com 67,6% em peso e tamanho médio das partículas de 1,5 μm.
Bifix QM Autoadesivo Voco (Porto Alegre/RS, Brasil) 1516211 Seringa QuickMix Cores: universal, transparente e branco opaco Bis-GMA, peróxido de benzoíla, aminas, catalisador, alumínio, sódio, estrôncio, vidro de silicato e fluoreto.
Allcem Core Convencional FGM (Joinvile/SC, Brasil) 130515 Seringa de corpo duplo (base + catalizador) com ponteiras de automistura com bico aplicador (6 g) Cores: A1, A2, A3 e Opaque Pearl Pasta base: metacrilatos (TEGDMA, BisEMA e Bis-GMA), canforoquinona, coiniciador, nanopartículas de dióxido de silício, pigmentos e conservantes. Pasta catalizadora: monômeros metacrílicos e peróxido de benzoíla (66-67% em carga de peso).
RelyX U200 Autoadesivo 3M Espe (Sumaré/SP, Brasil) 1619300260 Clicker (11 g) Cores: A2, A3, opaco e translúcido Pasta base: pó de vidro com silano, ácido 2-propenoico, 2-metil, éster, TEGDMA, sílica com silano, fibra de vidro e persulfato de sódio. Pasta catalisadora: metacrilatos, peróxido de benzoíla e partículas de vidro-bário-alumino-silicato.

 

 

Grupo A – Ativação química: as pastas foram manipuladas e o cimento foi polimerizado apenas através do método químico;

 

Grupo B – Fotoativação: as pastas foram misturadas e os cimentos foram imediatamente irradiados pela luz (BluePhase LED – Ivoclar Vivadent) durante 40 segundos;

Grupo C – Ativação química + fotoativação: as pastas foram manipuladas e os cimentos foram deixados polimerizar pelo método químico durante cinco minutos. Em seguida, foi realizada a ativação pela luz (BluePhase LED – Ivoclar Vivadent) durante 40 segundos.

Matrizes em teflon (7 mm de comprimento x 2 mm de largura x 1 mm de altura) previamente confeccionadas e calibradas serviram de modelo para a confecção de matrizes em silicone por condensação (Speedex/Coltene-Vigodent – Rio de Janeiro, Brasil), a fim de que volumes iguais dos cimentos resinosos fossem empregados (Figura 1). Estes foram manipulados conforme especificações dos fabricantes. Depois, os cimentos foram vertidos em incremento único até o completo preenchimento da matriz de silicone e cobertos com uma tira matriz de poliéster transparente, para a planificação de sua superfície, e, sobre essa tira, uma placa de vidro (1 mm) para que o material sofresse pressão uniforme, removendo os excessos. Em seguida, a ativação foi realizada de acordo com os grupos estudados (Figuras 2 e 3 ).

A fotoativação dos cimentos resinosos (grupos B e C) foi realizada sempre por meio do mesmo aparelho fotopolimerizador (BluePhase LED – Ivoclar Vivadent), o qual possui uma potência de 1.200Mw/cm2, conforme as especificações do fabricante. Para tanto, a ponteira permaneceu em contato direto com a placa de vidro durante a aplicação da luz, objetivando-se uniformidade da distância ao cimento resinoso. A matriz de poliéster e a placa de vidro foram utilizadas para diminuírem a inibição da reação de polimerização pelo oxigênio na camada superficial e facilitar a remoção da amostra. Logo após a polimerização, os corpos-de-prova foram removidos da matriz em silicone e polidos manualmente com o auxílio de uma lixa d’água 1.200 (número de grãos de areia por cm2). As dimensões foram conferidas com o auxílio de um paquímetro digital. Para cada modo de ativação, uma nova matriz de acetato foi utilizada, a fim de prevenir alteração na intensidade de luz.

Após polimerização de cada grupo, a matriz em silicone de condensação foi substituída, impedindo a contaminação entre os cimentos experimentais. Todas as amostras foram confeccionadas em ambiente com temperatura controlada a 25ºC, com variação de 1ºC. Após a realização do polimento, os corpos-de-prova foram medidos para a transformação dos resultados em Mpa, em seguida foram submetidos ao teste de miniflexão três pontos. O teste foi realizado em máquina de ensaio universal (DL500, Emic – São José dos Pinhais, Brasil) com velocidade de 0,5 mm/min. e célula de carga de 50 Kgf, distância entre os pontos de suporte de 5 mm e diâmetro da ponta aplicadora de carga de 1 mm (Figura 4 ). Durante o teste de resistência à miniflexão, o software da máquina de ensaios universal calculou o módulo de elasticidade por meio do módulo flexural das amostras. O módulo de elasticidade foi calculado a partir da porção elástica do gráfico tensão/deformação.

Previamente às análises, os dados de resistência à flexão e módulo de elasticidade foram avaliados quanto à normalidade pelo teste de Kolmogorov-Smirnov. Em seguida, foram submetidos à análise de variância dois fatores e comparações múltiplas através do teste Tukey. Os cálculos estatísticos foram conduzidos adotando-se o nível de significância de 5%, no programa SigmaStat 3.5 (Systat Software Inc. – San Jose, Califórnia, EUA).

Resultados

A Tabela 1 mostra os valores de média e desvio-padrão da resistência à flexão dos cimentos resinosos quando diferentes tipos de ativação foram usados. Para a resistência à flexão (RF), Anova dois fatores demonstrou não existir interação estatisticamente significante entre os fatores estudados (p=0,260). No entanto, os fatores “modo de ativação” e “tipo de cimento” apresentaram uma influência significante quando avaliados isoladamente (p < 0,001).

De acordo com o teste Tukey, os cimentos resinosos convencionais (Allcem Core e RelyX ARC) mostraram os maiores valores de RF, seguidos pelos cimentos autoadesivos. O cimento Bifix QM mostrou valores de RF intermediários, diferindo-o estatisticamente dos demais cimentos resinosos (p < 0,001). Entre os tipos de ativação, fotoativação e ativação química + fotoativação produziram valores maiores de RF quando comparadas à ativação química. A Tabela 2 apresenta os valores médios e o desvio-padrão do módulo elástico dos cimentos resinosos, de acordo com o modo de ativação utilizado. Para os resultados de módulo de elasticidade (ME), Anova dois fatores demonstrou que existiu uma interação estatisticamente significante entre os fatores estudados (p < 0,001).

De acordo com o teste de Tukey, apenas o cimento Allcem Core manteve os valores de ME após os três tipos de ativação (p > 0,05). Os cimentos RelyX U200 e RelyX ARC produziram maiores valores de ME quando a ativação imediata ou tardia foi realizada, em comparação à ativação química. O cimento Bifix QM mostrou os maiores valores de MF quando a ativação imediata foi realizada, e os menores valores para a química. A ativação tardia mostrou resultados intermediários, com uma diferença estatística em relação às demais.

Quando a ativação química foi realizada, os cimentos Allcem Core e RelyX ARC mostraram os maiores valores de ME. Quando a ativação imediata foi realizada, não existiram diferenças de MF entre os cimentos estudados. Para a ativação tardia, o cimento RelyX ARC mostrou os maiores valores de ME, seguido dos cimentos RelyX U200, Allcem Core e, com os menores valores, o cimento Bifix QM.

TABELA 1 – MÉDIA (MPA) E DESVIO-PADRÃO DOS VALORES DE RESISTÊNCIA À FLEXÃO, DE ACORDO COM O MODO DE ATIVAÇÃO E TIPO DE CIMENTO

Cimento Química Fotoativação Química + fotoativação Média
Bifix QM 62,5 (42,5) 139,5 (110,8) 117,2 (26,8) 106,4 (75,3) B
Rely X U200 37,1 (14,9) 86,5 (22,8) 102,3 (19,2) 75,3 (33,8) C
Allcem Core 139 (41,7) 162,0 (27,7) 149,7 (26,4) 150,1 (32,9) A
RelyX ARC 113,5 (29,0) 144,6 (39) 153,8 (27,6) 137,3 (35,7) A
Média 88 (52,2) B 133,1 (65,5) A 130,7 (32,7) A  

 

TABELA 2 – MÉDIA E DESVIO-PADRÃO (GPA) DOS VALORES DE MÓDULO DE ELASTICIDADE

Cimento Química Fotoativação Química + fotoativação
Bifix QM 1,1 (1,1)
c, B
3,8 (2,2)
a, A
2,5 (0,7)
b, C
Rely X U200 0,6 (0,2)
b, B
4,1 (1,4)
a, A
3,8 (0,9)
a, B
Allcem Core 2,7 (0,9)
a, A
3,6 (0,8)
a, A
3,5 (0,8)
a, BC
RelyX ARC 3,1 (0,9)
b, A
4,4 (1,4)
a, A
5,1 (0,8)
a, A

Médias seguidas por letras distintas indicam diferença significativa;
Letra maiúscula: comparação na coluna;
Letra minúscula: comparação na linha.

 

Discussão

Este estudo avaliou as propriedades mecânicas de resistência à flexão e módulo de elasticidade de diferentes cimentos resinosos de dupla ativação, e até que ponto o modo de ativação poderia interferir nestas propriedades mecânicas.

Uma polimerização adequada é fundamental para um melhor desempenho clínico dos cimentos resinosos e está diretamente relacionada ao sucesso clínico dos procedimentos restauradores indiretos13-15. De acordo com os resultados obtidos nesta pesquisa, os cimentos avaliados apresentaram valores médios e de desvio-padrão diferentes para o módulo de elasticidade, conforme o mecanismo de ativação utilizado – exceção esta atribuída ao Allcem Core (FGM), o qual apresentou valores semelhantes para todos os modos de ativação. Isto pode ser atribuído à presença, neste último, da canforoquinona como fator ativador a partir da emissão de fonte luminosa.

Por se comportarem de maneiras distintas e por possuírem propriedades mecânicas distintas, os cimentos resinosos de uma mesma categoria não possuem uso irrestrito, devendo o dentista ficar atento às suas devidas indicações. Modos de ativação distintos produziram propriedades mecânicas distintas, comprovado por diferenças estatísticas dos valores de resistência à flexão e módulo de elasticidade obtidos nesta pesquisa.

Fatores como tempo de exposição à fonte luminosa e distância entre a fonte luminosa e a superfície do cimento contribuem negativamente para uma completa reação de cura dos cimentos resinosos15. A fim de compensar tais possibilidades, foram desenvolvidos os cimentos resinosos duais, caracterizados por combinarem a capacidade de reagirem quimicamente com a possibilidade de obterem uma cura completa quando expostos a uma pequena intensidade de luz, em analogia ao seu uso em cavidades profundas16. Levando-se em consideração esses fatores, a pesquisa em questão manteve constante a intensidade da fonte luminosa, cujo comprimento de onda estabelecido pelo fabricante é de 1.200 Mw/cm², mantendo sua ponta aplicadora a uma distância de 1 mm, representado por uma película de vidro. Com isso, procurou-se manter constantes esses fatores, a fim de que os mesmos não interferissem nos resultados.

Algumas substâncias são utilizadas na composição dos cimentos resinosos, dentre as quais se tem as matrizes orgânicas (BIS-GMA e UDMA) e os diluentes (TEGDMA, por exemplo). Porém, este último tem uso limitado pois aumenta a contração de polimerização dos materiais de cimentação resinosas. Tais substâncias interferem nas propriedades mecânicas e capacidade de polimerização dos cimentos resinosos. A contração de polimerização é uma das principais causas de fracasso dos cimentos resinosos, uma vez que são responsáveis pelo aparecimento de trincas marginais. Os valores de média e desvio-padrão dos valores de resistência à flexão dos cimentos estão de acordo com a abordagem acima, visto que os cimentos convencionais apresentam composição orgânica com associação de BIS-GMA/TEGDMA e, por isso, apresentaram-se estatisticamente semelhantes. Já o RelyX U200 (3M Espe) apresentou uma composição orgânica constituída basicamente por TEGDMA, por isso apresentou-se com menores valores, ou seja, com a característica de menor resistência à flexão17.

Outra característica importante dos cimentos resinosos é representada por sua propriedade em resistir aos esforços mastigatórios, uma vez que são submetidos a uma tensão flexural/funcional considerável. Portanto, um dos pré-requisitos para a seleção do material de cimentação resinoso é considerar a sua capacidade de resistência mecânica à fratura, que pode ser avaliada utilizando o teste de resistência flexural, que detecta alterações estruturais tênues17. Os cimentos avaliados neste estudo apresentam uma grande diversidade de composição, além de fabricantes diversos. Estes fatores podem, de alguma forma, interferir nos resultados comparativos das propriedades mecânicas de resistência à fratura. Os resultados deste estudo demonstraram que os valores mais baixos de resistência à flexão foram obtidos pelo cimento RelyX U200 (3M Espe), quando submetido à ativação química apenas, o que pode ser explicado pelo seu conteúdo de TEGDMA e alta concentração de cargas inorgânicas. Já o RelyX ARC (3M Espe), quando submetido às ativações imediata e tardia, apresentou os maiores valores, uma vez que este possui associação do BIS-GMA/TEGDMA, o que possibilita a diminuição da viscosidade dos cimentos e, por conta da longa cadeia flexível do TEGDMA, possui relativamente maior grau de conversão, possibilitando uma ativação mais efetiva quando submetido à ação de fonte luminosa18-19.

Desta forma, os resultados deste estudo corroboram com pesquisas anteriores, que demonstraram que as propriedades mecânicas de RF e de ME dos cimentos resinosos de dupla ativação sofrem alterações na dependência da técnica e na forma de polimerização19-20. Essas diferenças de comportamento, provavelmente, relacionam-se com uma concentração diferente entre substâncias iniciadoras e aceleradoras. Quando não houve exposição à luz (ativação química), tanto os valores de RF como os de ME foram menores. Isso se deve, provavelmente, ao fato de que a ativação química não parece ser suficiente para compensar a ausência da luz (ativação física), ou seja, houve um grau menor de conversão polimérico. Desta forma, o componente responsável pela ativação química do material não pode compensar a total ausência de luz. O aumento do tempo de exposição à luz promove o aumento das propriedades físicas do material (RF e ME). A única exceção foi o cimento Allcem Core, que obteve resultados de ME semelhantes para todos os modos de ativação estudados. Isso pode ser explicado por conta da diferença entre os materiais iniciador e acelerador, uma vez que apresenta uma proporção maior de peróxido de benzoíla20-21.

Conclusão

Com base nos resultados desta pesquisa, pôde-se concluir que os modos de ativação são significantes para a resistência à flexão e de módulo de elasticidade dos cimentos avaliados. A fotoativação promoveu os maiores valores de módulo de elasticidade, sem diferença entre os cimentos.

Nota de esclarecimento

Nós, os autores deste trabalho, não recebemos apoio financeiro para pesquisa dado por organizações que possam ter ganho ou perda com a publicação deste trabalho. Nós, ou os membros de nossas famílias, não recebemos honorários de consultoria ou fomos pagos como avaliadores por organizações que possam ter ganho ou perda com a publicação deste trabalho, não possuímos ações ou investimentos em organizações que também possam ter ganho ou perda com a publicação deste trabalho. Não recebemos honorários de apresentações vindos de organizações que com fins lucrativos possam ter ganho ou perda com a publicação deste trabalho, não estamos empregados pela entidade comercial que patrocinou o estudo e também não possuímos patentes ou royalties, nem trabalhamos como testemunha especializada, ou realizamos atividades para uma entidade com interesse financeiro nesta área.
Endereço para correspondência
Karina Andrea Novaes Olivieri
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Galeria

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