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Publicado em: 11/15/2019 13h5

Vale a pena tratar a peri-implantite com enxertos ósseos?

Marco Bianchini apresenta caso clínico com a realização de procedimentos regenerativos em um implante acometido por peri-implantite.

Uma das discussões mais interessantes que ocorreram no simpósio de peri-implantite, realizado em Lisboa, em outubro de 2019, foi a respeito da regeneração óssea em casos de peri-implantite. Claramente podemos observar a existência de duas correntes científicas na atualidade: a primeira é aquela que acredita que o tratamento da peri-implantite deve apenas remover a infecção para que o implante, mesmo com redução de suporte ósseo, permaneça em boca com saúde; a outra é aquela que acredita que procedimentos regenerativos podem recuperar um pouco dessa perda, mantendo o implante em boca, igualmente saudável.

Nos últimos anos, eu venho comungando com a primeira corrente de pesquisadores, acreditando que se removermos a infecção e mantivermos o implante saudável, ele poderá sobreviver em boca por muitos e muitos anos. Acho este raciocínio bastante lógico, pois é exatamente isso que a Periodontia vem mostrando nos dentes naturais há quase 200 anos. Basta olharmos um pouco os nossos casos de dentes que receberam raspagem a campo aberto, sem enxertos ósseos, e observar que muitos desses dentes permaneceram em boca, de maneira saudável, por vários anos, mesmo tendo o seu suporte periodontal reduzido.

Porém, à medida que os biomateriais vão evoluindo e os agentes descontaminantes de áreas infectadas também, fica muito evidente que os benefícios de tentar ações regenerativas sobre os implantes acometidos por peri-implantite é um caminho que não deve ser desprezado. Pensando nisso, resolvi trazer hoje um caso clínico no qual realizamos procedimentos regenerativos em um implante acometido por peri-implantite e que encontra-se em acompanhamento. As figuras 1 a 6 ilustram esse caso.
 

Figura 1 – Controle de sete anos após a colocação das próteses sobre os implantes 15 e 16. Observar a intensa perda óssea no implante 16.

 

Figura 2 – Observa-se o retalho total descolado e acesso a toda área com intensa perda óssea no implante 16, após a remoção de todo o tecido de granulação. Figura 3 – Observa-se o implante 16 após a realização da implantoplastia (remoção das roscas contaminadas). Observar a manutenção das paredes ósseas que circundam o implante e o seu defeito ósseo.

 

Figura 4 – Observamos a descontaminação do implante, após a implantoplastia, com um agente à base de oxigênio (Blue M Gel oral – Amsterdam/Holanda). Figura 5 – Tem-se o preenchimento de todo o defeito ósseo com um biomaterial à base de matriz óssea orgânica bovina (Lumina Bone Porous – Critéria – São Paulo/Brasil).

 

Figura 6 – Recobrimento de toda a área enxertada com uma membrana reabsorvível de colágeno bovino (Lumina Coat Double Time – Critéria – São Paulo/Brasil) e a sutura final com tração coronal do retalho.

 

No caso apresentado acima, observa-se um defeito ósseo extremante favorável para a colocação do enxerto ósseo, uma vez que temos paredes ósseas remanescentes sadias, que mantêm o enxerto em posição, além de favorecer a nutrição dele. O completo fechamento do retalho sobre a membrana que protege o enxerto ósseo na sua área mais frágil, sem tensões no tecido mole, também favorece bastante a boa previsibilidade deste caso. Porém, a pergunta que não quer calar é: haverá reosseointegração desse novo osso?

A resposta dessa pergunta provavelmente nunca poderá ser dada, pois para termos certeza que houve uma reossseointegração teríamos que biopsiar toda a área e fazer um corte histológico. Entretanto, as futuras imagens radiográficas e tomográficas, que serão realizadas ao longo dos meses e anos nos controles pós-operatórios, poderão nos dar um bom indicativo do sucesso da técnica. Certamente os tecidos moles serão mantidos em posição, pois o enxerto evita o colapso desses tecidos. Além disso, se o implante se mantiver saudável, mesmo que não haja a reosseointegração, as funções desta fixação serão cumpridas.

Ainda há muito que pesquisar a respeito dos enxertos ósseos no tratamento da peri-implantite. Muitos casos realmente dispensam os enxertos, pois não temos paredes ósseas remanescentes suficientes que possam favorecer a regeneração completa da área. Em outras situações, a perda óssea pode ter se dado por invasão de distâncias biológicas peri-implantares e o osso jamais voltará a se aderir ao implante, pois a área perdida requisita tecidos moles e não duros. Porém, nos casos nos quais os defeitos são favoráveis, como o que apresentamos hoje, o preenchimento ósseo dos defeitos poderá trazer bem mais benefícios do que problemas.
 

“Porque assim diz o Senhor DEUS: Eis que eu, eu mesmo, procurarei pelas minhas ovelhas, e as buscarei. Como o pastor busca o seu rebanho, no dia em que está no meio das suas ovelhas dispersas, assim buscarei as minhas ovelhas; e livrá-las-ei de todos os lugares por onde andam espalhadas, no dia nublado e de escuridão.” (Ezequiel 34:11,12)


 

 
   


Marco Bianchini

Professor associado II do departamento de Odontologia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC); autor dos livros "O Passo a Passo Cirúrgico na Implantodontia" e "Diagnóstico e Tratamento das Alterações Peri-Implantares".

Contato: bian07@yahoo.com.br

 

 

 

           

 



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