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Publicado em: 9/13/2019 11h

É preciso ser um cirurgião-dentista famoso?

Marco Bianchini relembra passagem interessante que trouxe reflexão sobre a fama na Odontologia.

A maioria de nós, seres humanos, por mais que tentemos negar, corremos atrás do reconhecimento público. Seja qual for a nossa profissão ou área de atuação, estamos sempre na busca do sucesso que, impreterivelmente, vai nos levar a certa fama. Quem não gosta de dizer que é dentista de celebridades, que seus pacientes são pessoas abastadas ou famosas ou, ainda, que tem muitos seguidores no Instagram que não são robôs?

Buscar ter uma clientela robusta não é nenhum pecado. Afinal, é para isso que abrimos os nossos consultórios. Também não é antiético ter seguidores no Instagram e trabalhar em um marketing saudável. Isso faz parte do livre mercado, desde que seja feito dentro da lei, seguindo o saudável jogo da concorrência. Porém, o que eu me pergunto frequentemente é se é realmente necessário ser um cirurgião-dentista famoso para obter sucesso na profissão.

Este tema me recorreu à cabeça no último IN 2019 – Latin American Osseointegration Congress que aconteceu na cidade de São Paulo, em agosto passado. Eu tinha acabado de ministrar uma palestra com o auditório lotado, que teve uma grande aceitação pelo público. Estava muito orgulhoso e com a autoestima lá no teto. Então, depois de tomar um cafezinho para relaxar, resolvi dar uma volta na feira comercial, mais especificamente nos estandes de Odontologia Digital, para ver um scanner intraoral que estava querendo comprar.

Quando eu cheguei a um desses estandes, já com o peito estufado, como se eu fosse o próprio Brånemark encarnado, comecei uma conversa com o vendedor, achando que ele me conhecia. Depois de alguns segundos eu logo percebi que eu era mais um ilustre desconhecido a entrar naquele estande. O ponto crucial foi quando ele pegou no meu crachá para ler o meu nome e perguntou qual era a minha área de atuação. Na mesma hora, eu murchei e fiquei bastante decepcionado. Afinal, eu acabara de ministrar uma aula que foi muito bem recebida pela plateia. Como alguém que estava a poucos metros da sala onde tinha ocorrido a minha palestra não sabia quem eu era?

Na verdade, nuances de sucesso nos levam a um mundo imaginário da fantasia, onde pensamos que tudo gira ao nosso redor. Dentro da minha arrogância, talvez eu tenha imaginado o absurdo de que todas as quase seis mil pessoas que circulavam no IN 2019 teriam a obrigação de me conhecer. Obviamente que o meu senso racional e a ajuda de Deus logo me fizeram voltar à realidade e colocar os meus pés no chão. Agradeço muito aquele vendedor que me fez calçar novamente as sandálias da humildade.

Este pequeno fato que relatei para vocês pode tranquilamente ser levado para dentro dos nossos consultórios particulares. Muitas vezes, quando realizamos um caso de sucesso em algum paciente que julgamos ser mais importante do que os outros, nós começamos a pensar que todos os novos pacientes que entram nas nossas clínicas estão sabendo disso. A nossa prepotência nos faz ingressar em um mundo imaginário de que somos realmente uma celebridade e que os nossos novos pacientes têm a obrigação de saber que nós somos “famosos”. Isso pode acontecer com qualquer um. Você não precisa ser palestrante ou professor para se achar famoso. Basta ter a agenda cheia e dominar um nicho de mercado que a arrogância irá se apresentar a você e, se você permitir, ela irá lhe dominar e você vai começar a tratar os seus clientes de maneira equivocada, como se você estivesse fazendo algum favor em atendê-los.

É certo que não há necessidade de nos tornarmos famosos para sermos profissionais de sucesso. Basta apenas que os nossos casos restabeleçam a saúde de nossos pacientes, que mais e mais clientes irão adentrar em nossas clínicas e consultórios particulares. O cliente novo, que chega para uma consulta inicial, geralmente veio indicado por alguém ou por algum lugar. Ele pode ter chegado a você pelas mídias que você investe ou pelo famoso boca a boca. Porém, você pode ter a certeza que, mesmo que você seja para ele um ilustre desconhecido, ele está lhe procurando para a resolução de um problema. Se você for apto para resolver esse problema, certamente, para este cliente, você será o dentista mais famoso do mundo. Quando nós, cirurgiões-dentistas, achamos que somos mais importantes do que os nossos clientes, estamos iniciando o rápido caminho da falência.
 

“Porque o Senhor Deus é um sol e escudo; o Senhor dará graça e glória; não retirará bem algum aos que andam na retidão. Senhor dos Exércitos, bem-aventurado o homem que em ti põe a sua confiança.” (Salmos 84:11,12)

 

 
   


Marco Bianchini

Professor associado II do departamento de Odontologia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC); autor dos livros "O Passo a Passo Cirúrgico na Implantodontia" e "Diagnóstico e Tratamento das Alterações Peri-Implantares".

Contato: bian07@yahoo.com.br

 


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