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Publicado em: 6/17/2019 10h45

Graham Jones: aparelhos autoligáveis em más-oclusões de classe II e III

Em entrevista, o professor norte-americano fala sobre a sua experiência com o uso dos aparelhos autoligáveis.
Ana Carla Nahás-Scocate e Graham Jones falam sobre protocolos de uso dos braquetes autoligáveis. (Fotos: Rodrigo Pacheco)

 

A teoria não é suficiente para o norte-americano Graham Jones. Desde que teve contato com os aparelhos autoligáveis – durante o curso de especialização em Ortodontia, na Universidade de Saint Louis – percebeu que poderia apostar nos resultados desse recurso. E foi isso que ele fez. Hoje, essa é a terapia de escolha para seus pacientes adolescentes e adultos.

Doutor em Cirurgia Dental pela Faculdade de Odontologia da Universidade da Califórnia, Jones esteve em visita ao Brasil e, a convite da OrtodontiaSPO, foi entrevistado pela ortodontista brasileira Ana Carla Nahás-Scocate, que possui pós-doutorado em Biologia Molecular pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Durante a conversa, Graham Jones conta como costuma conduzir seus casos clínicos e os protocolos adotados para o tratamento das más-oclusões de classe II e III utilizando braquetes autoligáveis.
 

Ana Carla Nahás-Scocate – Você trabalha muito as más-oclusões de classe II com aparelhos autoligáveis. Você usa apenas autoligáveis ou também coloca aparelhos convencionais e linguais?
Graham Jones – Meu primeiro contato com os braquetes autoligáveis foi durante a residência na Universidade de Saint Louis e gostei de trabalhar com eles porque senti melhor engajamento do fio. Quando abri minha clínica, em 2007, adotei esse recurso pensando no perfil dos meus pacientes: adultos e adolescentes. No começo, achei que na fase 1 das crianças, talvez, eu economizasse dinheiro usando aparelhos convencionais porque não seria tão importante utilizar esse tipo de aparelho. Porém, descobri bem rápido que, muitas vezes, os pacientes na fase 1 realizam tratamento precoce, porque têm apinhamento severo, grande overjet, é preciso abrir espaço para um dente impactado ou é preciso tração para um dente impactado. Dessa forma, concluí que, mesmo com braquetes convencionais, eu estava usando muita mola helicoidal ou elástico em cadeia e observei que precisava, ainda, amarrar meus braquetes o tempo todo. Essa, aliás, é uma grande vantagem dos braquetes autoligáveis em relação aos convencionais: se o clipe está fechado, é quase idêntico a um braquete convencional perfeitamente amarrado. Assim, percebi que gosto de usar braquetes autoligáveis tanto em pacientes adultos quanto nos adolescentes, e que há uma grande aplicação também para os pacientes da fase 1, no controle dos efeitos colaterais da rotação que possa ocorrer.


Ana Carla – Existe uma sequência de fios específica para os autoligáveis ou depende do caso?
Jones – Definitivamente, depende do caso. Eu uso slot 0.22” e, muitas vezes, começo com arco 0.14” ou 0.16” só para alinhar e nivelar. Em seguida, avalio a necessidade do caso, por exemplo, se é uma situação de apinhamento e preciso continuar no nivelamento, então, eu uso até 0.18” ou 0.18” x 0.18” como próximo fio. Mas, se não for um caso muito apinhado e houver espaços, opto por entrar logo na mecânica de fechamento do espaço ou na mecânica de classe II, tentando ir direto do arco 0.16” para arco termoativado 0.20” x 0.20” ou 0.17” x 0.25”. Meu objetivo, sempre que possível, é chegar a 0.19” x 0.25” em duas consultas.


Ana Carla – Para protração da mandíbula, que tipo de aparelho você usa?
Jones – Meu aparelho favorito de correção de classe II é o elástico. Eles funcionam muito bem, especialmente para pacientes que estão crescendo e estão motivados a usar os elásticos. Já experimentei começar com elásticos de classe II curtos do canino superior aos segundos pré-molares logo no início do tratamento – geralmente, quando coloco o aparelho ou pelo menos na primeira consulta. Se o canino é impactado ou está alto, às vezes, vou do primeiro pré-molar para o primeiro molar inferior. Porém, quando estou começando o tratamento, tento mantê-lo curto e uso um elástico leve, de um quarto de polegada e 4 oz. Mas, meu objetivo é usar um fio de tamanho grande, por exemplo, 0.17” x 0.25” ou 0.19” x 0.25”, nos primeiros seis meses de tratamento. Então, não vejo muitos efeitos colaterais em relação ao uso desse elástico no início do tratamento.


Ana Carla – Nos casos em que o paciente não é muito motivado, como você faz?
Jones – Os pacientes que têm o melhor tratamento e passam rápido pela correção de classe II são os motivados. Desde o começo ou até antes de colocar o aparelho, eu tento explicar como é importante a cooperação com os elásticos. Mas, há certo número de pacientes com classe II que não cooperam. Nesses casos, eu uso um powerscope para a correção da classe II, normalmente quando chego no fio de aço inoxidável 0.19” x 0.25” superior e inferior.


Ana Carla – E com os adultos classe II, você usa autoligáveis?
Jones – Sim. Quase sempre uso metal na parte inferior e braquetes autoligáveis estéticos na parte superior, apenas por estética. Se os pacientes adultos querem braquete estético, então acho que o braquete empower estético é bom, pois é de cerâmica e tem a porta de metal que pode fechar – assim, não precisamos nos preocupar com a descoloração de elásticos ao redor do aparelho ao longo do tempo. Para a correção de classe II em adultos, não tem o crescimento para nos ajudar, portanto, o desafio é maior. Se a classe II é moderada ou leve, eu uso elásticos com adultos desde o começo, pois sei que mudanças dentárias são necessárias. Quando os incisivos superiores voltam, e muito mais baixos, é uma compensação dentária – e isso é explicado ao paciente. Não é surpresa que o resultado é o movimento dos dentes e não o movimento do queixo nos adultos. Além disso, só faço isso quando sei que há espaço para compensação. Então, se o tecido periodontal resistir e não for afetar o perfil de forma negativa, faço a compensação dentária para adultos classe II. Caso o tecido periodontal não consiga lidar com tanta mudança ou se isso afetará o perfil de forma negativa, então há outras opções: extração de pré-molares superiores ou cirurgia. Também, em alguns casos talvez tenhamos que aceitar a oclusão de classe II e nos concentrarmos apenas na melhora estética, que conseguimos alinhando os dentes.


Ana Carla – Você trabalha sozinho ou tem uma equipe?
Jones – Tenho sete funcionários que compõem minha equipe clínica e de atendimento. Mas, para praticar a Ortodontia da forma como eu quero, obtendo os resultados que eu espero, eu confio em uma equipe de especialistas da Odontologia como um todo. Meus pacientes têm clínico geral, periodontista etc. Eu comecei dois clubes de estudo com um periodontista para discutir o tratamento multidisciplinar, pois, em alguns casos, preciso trabalhar com bucomaxilofacial e endodontista. Embora na minha clínica só eu seja especialista em Ortodontia, eu não estou tratando meus pacientes sozinho, confio em uma equipe. Nós treinamos juntos, falamos a mesma língua e temos os mesmos objetivos para os pacientes. Não importa o quão alinhados ficam os dentes, pois alguns deles precisam de restaurações ou de um trabalho periodontal que eu não posso fazer. Dessa forma, é necessária uma equipe inteira para alcançar o resultado pretendido.


Ana Carla – Qual a sua experiência em tratar más-oclusões de classe III?
Jones – Se o caso for discrepância esquelética séria, uma porcentagem maior de pacientes classe III vai passar por cirurgia em comparação àqueles classe II. A cirurgia sempre é parte da discussão, sobretudo se o paciente está crescendo. Para tratamentos precoces de classe III, tive bons resultados com a terapia de máscara facial, que também experimentei um pouco com expansão maxilar e constrição, fazendo uma semana de expansão e depois uma semana de constrição – todos os dias, ativando um ou dois turnos por dia. Expandia por uma semana e depois constringia por uma semana, fazendo essa alternância por um período de cinco ou sete semanas. Essa técnica foi publicada por Eric Liou, de Taiwan, e mostrou alguns resultados bem interessantes. Tenho pacientes que estão piores do que eu normalmente acharia ideal para o uso da máscara facial e, quando experimentei neles, fiquei impressionado com os resultados.

A preocupação é quando tratamos pacientes cedo: quanto de crescimento de classe III eles vão ter no futuro? Vi alguns casos tratados muito bem na fase 1, mas ainda crescendo a classe III de novo, o que pode ser decepcionante. O motivo é genético e não temos controle. Também já coloquei dispositivos de ancoragem temporários (DATs) na área entre o primeiro e o segundo molar, tipo buccal shelf. Para alguns pacientes classe III limítrofes, DATs ou placas cirúrgicas funcionam para retrair todo o arco dentário mandibular, onde talvez não queremos partir para cirurgia, mas não há muito espaço para os dentes superiores virem para frente para compensar. Então, retraímos o inferior. Eu também fiquei muito impressionado com os resultados usando placas ou DATs buccal shelf para retração em classe III.


Ana Carla – Qual a sua experiência com alinhadores? Há más-oclusões que você prefere tratar com esse recurso?
Jones – Comecei a usar alinhadores transparentes nos últimos anos. Especialmente os adultos estão interessados em opções estéticas como esta. Acho que para apinhamento leve, apinhamento moderado ou diastemas moderados, os alinhadores funcionam muito bem. Também fico impressionado sobre o quão bem eles funcionam na mordida aberta leve ou moderada, porque nós temos controle para intruir um pouco os molares. Em alguns desses casos, às vezes, eu não uso aparelho fixo por causa da mordida aberta e prefiro adotar alinhadores.

Por outro lado, acho que podem ser muito desafiadores para mordida profunda. Muitos dos pacientes adultos têm desgastes nos dentes e mordida profunda, que ficou mais profunda com o passar do tempo e, talvez, o dentista queira restaurar alguns dentes desgastados. Eu adoraria poder tratar esses casos com alinhadores, intruir e abrir a mordida na frente, mas pode ser muito desafiador. Além disso, em pacientes adultos temos que lidar com a perda óssea. Às vezes, eu não tenho certeza se é possível ou não usar alinhadores, porque eles podem remover o aparelho o tempo todo.
 

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Assuntos Relacionados:
Graham Jones; entrevista; Ana Carla Nahás-Scocate; aparelhos autoligáveis; má-oclusão de classe II; má-oclusão de classe III


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